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ASSEMBLEIAS: ESPAÇO DIALÓGICO COM PARTICIPAÇÃO DA COMUNIDADE ESCOLAR

Claudia Corrêa – Pedagoga – Universidade São Judas Tadeu/ Universidade de São Paulo (FEUSP)
Cristiane Boneto – Pedagoga – Universidade de São Paulo (FEUSP) – Mestra em Educação Matemática - Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP)
Clara de Sá P. Silva- Estudante de Pedagogia – Universidade de São Paulo (FEUSP)

Resumo: Este artigo propõe reflexões acerca da constituição das Assembleias e da importância deste espaço dialógico no cotidiano escolar. Referem-se à participação ativa dos discentes na vida organizativa da escola, descentralizando as decisões e desenvolvimento as relações interpessoais e inclusivas na prática de escuta atenta, e comunicação não violenta.  Compreendendo, portanto o papel da assembleia na capacitação dos jovens para uma cidadania ativa. Vivenciando experiências participativas no contexto escolar para um modo de vida democrático. O estudo tem como referencia relatos de experiências vivenciadas pelos grupos do Ensino Fundamental nos momentos das Assembleias, desenvolvidas no Colégio Oficina Pindorama, sediada na região de Vargem Grande Paulista, interior de São Paulo. Os resultados mostram que a adesão da prática criada a partir de encontros dialógicos permanentes que objetivam o compartilhar de saberes elaboração conjunta dos caminhos administrativos e pedagógicos a serem seguidos, efetivou uma nova constituição da dinâmica escolar: mudança de postura, regimento escolar, organização dos espaços de estudos, horários, currículo, projeto político pedagógico, avaliação, e relações interpessoais. A análise dos instrumentos de autonomia, este construído no próprio cotidiano, revela que a participação dos estudantes é legitima, ainda que, haja intercalces são vistos positivamente como parte da formação desse processo. Concluímos, pois, que essa proposta favorece a reflexão sobre a necessidade de um espaço em que os sujeitos possam contribuir para a formação de valores sociais e pessoais. Além de tornar no coletivo, o sentimento de pertencimento e como resultado, o espírito cuidador.

Palavras-chave: assembleia; espaços dialógicos; comunidade escolar; participação cidadã.

Introdução

O processo educacional da Escola Oficina Pindorama é desenvolvido dentro de uma visão holística da educação, através da Pedagogia da Iniciação Científica e Projeto trabalha-se de forma integral e integrada a relação do ser humano em harmonia com o cosmos: natureza, sociedade, o outro e si próprio. O projeto pedagógico, além do ensino de conhecimentos universais e científicos, contempla valores relevantes para a sabedoria humana e fomenta as relações de solidariedade, de respeito com o próprio eu e com o próximo. O mundo contemporâneo passa por alguns processos que implicam em necessidades de mudanças significativas no campo da educação, sobretudo no âmbito da comunicação e educação inclusiva.
Crescem, portanto, as exigências de conhecimentos criativos, autônomos e transformadores, para que a escola seja um espaço que atenda as expectativas e necessidades para uma sociedade mais comunitária, e de cada indivíduo com suas singularidades, que dela pertence. Há mais demandas no âmbito ético, sócio emocional, na igualdade e equidade.
Essa ideia contempla o que os Parâmetros Curriculares Nacionais (BRASIL, 1997) propõem. Segundo os PCNs a escola deve ser um lugar onde os valores morais são pensados, refletidos, e não meramente impostos ou frutos do hábito; e também deve ser proporcionado o convívio democrático, pautado na justiça e no respeito mútuo, pois esse convívio é compreendido como a melhor experiência moral, que o estudante pode viver.
Para a efetivação desse ideal na Escola Oficina Pindorama, tornou-se necessário o compartilhamento de sonhos e a criação conjunta de dispositivos para as ações e intenções que levaram os integrantes da comunidade escolar a participarem e se sentirem membros efetivos e corresponsáveis por esse processo, tendo, mais do que isso, liberdade e confiança para exporem suas práticas, dúvidas, angústias, conhecimentos e, por que não, suas crenças, concepções e representações.
A assembleia é uma relevante ferramenta, nas práticas educativas democráticas e inclusivas da Escola Oficina Pindorama, que proporciona resultados positivos conforme as premissas supracitadas.

Objetivos

O principal objetivo deste relato de experiência é compartilhar estratégias, processos e reflexões acerca da constituição das Assembleias na Escola Pindorama e da importância deste espaço dialógico no cotidiano escolar, no desenvolvimento integral de toda à comunidade escolar e no movimento de descentralização de decisões.

Metodologia

Para a coleta de informações e dados, foram resgatados registros escritos produzidos por mantenedores, coordenadores e professores da escola Pindorama no momento de idealização e maturação da constituição das Assembleias no espaço escolar.
Durante este processo, foram realizadas Assembleias entre esta equipe para que pudessem vivenciar a experiência e tentar compreender o movimento existente na Assembleia e, aos poucos, identificar elementos que proporcionavam crescimento e ações tidas pelo grupo como positivas e produtivas e ainda tentar localizar e identificar possíveis entraves existentes no processo e, a partir destas informações, pensar e propor novas articulações.
A cada experimentação, a equipe buscou estudos que pudessem amparar esclarecer dúvidas emergentes e nortear possíveis alterações. Além dos estudos, esta equipe elaborou propostas de ações a serem realizadas com o restante da comunidade escolar, inclusive, alunos.
A partir destas experimentações, a equipe iniciou a constituição das Assembleias com a comunidade escolar; os movimentos existentes durante as Assembleias, as impressões pessoais e coletivas e propostas de ação a serem utilizadas neste espaço dialógico foram registradas por diferentes membros da comunidade em papel pardo e este documento foi afixado em local de circulação de toda a comunidade e, portanto, ficou disponível durante um determinado período. Além dos registros escritos, foram realizados registros fotográficos e anotações pessoais.
A cada Assembleia realizada com a comunidade, um novo documento era gerado de forma colaborativa. Alguns membros da comunidade foram convidados a compartilhar suas impressões acerca dos movimentos existentes nas Assembleias e estas informações foram registradas e fazem parte do portfólio da escola.

Desenvolvimento

A Escola Oficina Pindorama foi fundada no ano 2008 por Claudia Correa e Adelino Luiz C. da Cunha. Após muitos anos de trabalho e estudos dedicados na área da educação, decidiram colocar em prática todas as reflexões trazidas com a experiência, estudos e diálogos para construir e constituir uma escola com postura sólida e olhar atento ao desenvolvimento de crianças e jovens; buscavam desenvolver, portanto, uma educação mais voltada para a formação do ser; ser este, dotado de crenças, sentimentos e emoções.
O sonho, nesse momento, era inverter a lógica da educação tradicional, que segue um modelo industrial, em que o currículo vem pronto, desconectado da realidade de cada um; que aceita uma aprendizagem passiva, sem reflexão, que não valoriza a criatividade, a curiosidade, os interesses e competências individuais, onde os aprendizes e seus professores não têm espaço para expressarem seus talentos, não há espaço para a criação e nem para o pensar. Uma educação em que, a única voz é a do professor e este, por sua vez, determinam como, quando e a forma como a aprendizagem deve acontecer. A mesma lógica perpassava a ideia da relação existente entre os gestores, a coordenação, os professores e demais colaboradores.
É importante salientar que todas estas ações passaram e passam por “transmutações” que tem como finalidade respeitar a diversidade, a regionalidade e a temporalidade. Desta forma, há um constante aprimoramento e ajuste das práticas à realidade local.
O cuidar é um dos fios condutores no trilhar dessa proposta – cuidar de si, cuidar do outro, da comunidade, do ambiente. Diante destas premissas, a Comunidade da Escola Oficina Pindorama elaborou sua missão: transformar a sociedade a partir da construção coletiva e desenvolver Comunidades Cidadãs de Aprendizagem e Sustentabilidade e assim, possibilitar um mundo com mais igualdade, fraternidade, com mais amor e paz. Para alcançar tal propósito, dois importantes elementos se fariam necessários: a transformação na escola e reconhecimento da comunidade.

Aplicabilidade da Assembleia

Há quatro anos, para contemplar e atingir os objetivos almejados implantou-se a prática das Assembleias. A primeira Assembleia aconteceu com o propósito de solucionar conflitos existentes na escola e, posteriormente, o grupo propôs um estudo que trouxesse informações acerca da historicidade das assembleias e a importância destes espaços para a construção da democracia. Procedimentos e critérios levantados nestes momentos iniciais
foram essenciais para o andamento harmonioso dos encontros e para o acompanhamento e entendimento de todos. A sistematização das assembleias consiste, desde a elaboração da pauta, com um registro delicado e respeitoso, preparação dos espaços, conversa acerca da postura dos participantes até as reflexões coletivas e identificação de mudanças conceituais, procedimentais e atitudinais.
No pátio da escola, espaço nomeado como Ágora (na antiguidade praça das cidades gregas onde aconteciam as assembleias), fica exposto um flip chart e é disponibilizado um canetão para que todos os interessados possam, durante a quinzena, registar e “alimentar” a pauta com os conteúdos que gostariam que fossem abordados na assembleia subsequente.
Foi decido, pela coletividade, que não haveria necessidade da identificação da pessoa que solicitava determinado assunto; a justificativa para tal era a de cuidar e evitar possíveis constrangimentos e cobranças. No dia da Assembleia, os conteúdos da pauta eram transcritos na ficha organizativa, uma ata da assembleia que contem: data, início, término, número de participante, pauta, coordenadores, debate reflexivo, combinados do coletivo, itens da pauta postergados, felicitações para os resultados positivos.
Todos os participantes são posicionados em roda e são escolhidos democraticamente quatro organizadores sendo estes: o que cronometra o tempo e dá o início e fim do encontro; o que escreve os acordos na ata, o que acompanha e o que interfere na harmonia da assembleia. Foram convencionadas, de forma democrática, algumas normas de conduta como: levantar a mão quando quiser se posicionar e praticar a escuta atenta, portanto, o silêncio se tornou ponto alto como critério de respeito na roda.
O participante ou uma minoria que não concorde com determinado combinado, tem a oportunidade garantida de argumentar sobre sua negação e propor uma nova possibilidade, na assembleia subsequente, para um novo consenso.
São considerados, relevante que não haja apontamentos, julgamentos e acusações durante o debate e acordos. Araújo considera que:

O objetivo de uma assembleia é discutir princípios, atitudes, e então construir regras de regulação coletiva e as propostas de resolução dos problemas. Discutem-se os conflitos na escola, a sujeira na classe, o assédio moral ou sexual, o fato de os estudos estarem sendo prejudicados por determinados comportamentos, e não quem está cometendo tais faltas. Isso porque as regras não podem jamais ser personalizadas. Não podem ser feitas para uma pessoa ou pequeno grupo. Elas têm que ser coletivas. (2004, p.62)


Figura 1: Assembleia Colégio Oficina Pindorama

Outro critério importantíssimo a ser cumprido diz respeito à discrição e ética em relação à pauta durante os dias que antecedem a Assembleia, pois, muitas vezes, pode ser inserido no flip chart algum assunto ou acontecimento que não agrada a determinados grupos ou pessoa e, se não houver um combinado que visa preservar e manter o respeito à opinião alheia, poderá haver conflito, disputa e imposição de valor.
Quanto à ata das Assembleias, considera-se relevante o uso de tópicos para cada um dos assuntos inseridos no flip chart para favorecer um melhor entendimento e encaminhamento dos conteúdos relacionado à pauta. É importante que o educador permita e dê espaço para que os estudantes possam se expressar e decidir com autonomia os combinados. Contudo, faz-se necessário a interferência de um adulto quando as decisões estão fora do contexto ou infringem alguma regra da escola e, neste momento, é importante que haja a explanação e reflexão sobre o discernimento e coerência existente nos acordos propostos.
Puig (2000, p. 153-154) considera que, "seja qual for à abordagem, o posicionamento do educador ou da educadora em favor dos valores universais deve ficar muito claro”. Entretanto: "quando se fala de racismo, discriminação, violência ou exploração, a mestra ou o mestre deve posicionar-se rejeitando claramente esses contra valores".
Em uma das Assembleias, alguns alunos fizeram reivindicações quanto ao uso de skate na escola à utilização de equipamentos de segurança. Os educadores e até mesmo outros colegas alegaram o quão é importante o cuidado com a segurança de cada um. Na ocasião, o argumento foi importante e necessário para a reelaboração da solicitação.
É importante salientar que os conflitos, neste momento, são esperados e, muitas vezes, fomentam novas construções e amadurecimentos. Em uma das Assembleias apareceu à discussão sobre os acordos e a importância do planejamento e estudo antes da tomada de decisão. Na ocasião, houve a apresentação e ilustração da fábula do Esopo intitulada de “Assembleia dos Ratos”; nesta, é possível perceber que tudo tem de ser bem pensado e planejado para que os resultados dos acordos se efetivem com sucesso.
Para encerramento das Assembleias é proposta uma reflexão para identificar o ponto tido como o mais alto e positivo, ponto este, que resultou em novos combinados. Neste momento, há o agradecimento e a felicitação é feita com aplausos para todos como cooperadores desse resultado.
Após reflexões e conversas, os educadores, pensando em ampliar a afetividade e respeito, propuseram que fosse realizada uma vivência cooperativa sobre Comunicação não Violenta em cada Assembleia e ficaria a critério do grupo o momento mais propício (início ou encerramento). Vale salientar que se tornou um momento de alegria, aprendizagem e fraternidade entre todos.
Reiteramos que, muitas vezes, os resultados esperados e almejados não são totalmente concretizados, pois, um trabalho cooperativo e dialógico precisa ser exercitado e fomentado permanentemente.
A transformação do sujeito acontece na medida em que, a cada Assembleia, há preocupação com a escuta atenta dos estudantes, a sinalização e retomada da importância do respeito à pluralidade cultural, à natureza e consigo mesmo. Constantemente retomar o exercício da escuta, da fala respeitosa, do olhar para a sua própria história, a história do outro e da comunidade, do desenvolvimento do espírito de participação cidadã, da formação de caráter e cidadania (um sujeito que se importa e atua de forma cooperativa com a vida pública).
As assembleias, além de ampliar o vínculo, laços afetivos e empatia entre a comunidade, é um espaço onde todos participam de ações políticas e desenvolvem o senso crítico. Nos encontros é salientado que a participação ativa os distanciará da alienação. Aos poucos os estudantes começam a perceber a importância da participação e da coerência de seus próprios atos na construção de um espaço de boa convivência.
A educação em valores humanos é exercitada na assembleia e no cotidiano da escola, onde todos, organicamente, começam a cobrar mudanças de postura do coletivo. O ponto significativo é que todos compreenderam e incorporaram a assembleia como ferramenta para os acordos coletivos e reconhecem e respeitam os movimentos que acontecem na Ágora. Todos, nessa comunidade escolar, se unem em busca de um espaço mais democrático e veem na coletividade e colaboração um precioso instrumento, percebe-se que um precisa do outro, que um aprende com o outro e o resultado é de todos e para todos.
As assembleias, portanto, têm contribuído muito com a ampliação e qualidade do currículo, pois agora, contempla conteúdos mais significativos para os educadores, educandos e até familiares que se encantam com o processo ao ver a garotada aprendendo com mais prazer e alegria.
Muitas vezes, as ideias e projetos difundidos nas Assembleias, juntamente com a
metodologia de Iniciação Científica e Projetos1, ganham amplitude, encantam grupos internos e externos e se transforma em grandes projetos como, por exemplo, a proposta trazida pelos estudantes, no ano de 2015, referente a um projeto cultural chamado de “Saltimbancos”; este aconteceu na praça em frente a escola e contou com a participação da comunidade.
Outras possibilidades podem ser vivenciadas e oportunizadas pela Assembleia a partir de problemas existentes na própria escola ou comunidade como, por exemplo, a necessidade de fazer uma estação de captação da água na escola por conta do problema da falta de chuva. Na Assembleia apareceu o problema da limpeza da quadra e a escassez de água, inclusive das chuvas. Alunos propuseram ações para mitigar os impactos ambientais como, por exemplo, a construção de uma cisterna.
Pudemos perceber que, faz-se necessário um cuidado e olhar para os conteúdos que compõem o currículo, pois, muitas ações propostas na Assembleia tem estreita relação com inúmeros destes conteúdos e, portanto, a articulação é importante e pode favorecer a ampliação do currículo e uma aprendizagem mais significativa e ativa.

1 A metodologia de Iniciação Científica e Projeto, na Escola Oficina Pindorama, são aplicados desde a Educação 
Infantil até o Ensino Médio. Esta tem como caminho desenvolver em nossos estudantes,  seu potencial como 
pesquisador. Isso acontece de maneira sistêmica que promove o aprofundamento de uma pesquisa investigativa e 
possibilita o desenvolvimento de um projeto. É relevante a aprendizagem de técnicas e métodos científicos e que 
contemple a interdisciplinaridade e transversalidade. 
 O pensamento científico e o envolvimento com as questões suscitados pelo próprio educando vão fomentando o 
interesse dos mesmos e constituindo uma nova maneira de pensar, possibilitando a ampliação da cognição e 
metacognição, a qual se refere à metodologia que almejamos.
Contudo, o estudante-pesquisador é incentivado a buscar respostas aos seus questionamentos, a partir de 
conhecimentos prévios, científicos ou de senso comum. Nesse processo investigativo o estudante, sistematiza as 
ideias, compila as referências, realiza investigações, observa, levanta hipóteses, analisa os resultados e registra 
suas experiências. De maneira ativa e autônoma o educando torna-se parte da construção do próprio 
conhecimento. Esse é o processo de transformar as investigações, informações e experimentos, em 
conhecimentos científicos.

Conclusão

Dar voz aos estudantes, professores, funcionários e comunidade é um ato democrático e mais humano de resolver os problemas e construir ações positivas que refletem as vivências locais. Quando cada um deles se sente pertencente do coletivo e tem a oportunidade de parte da construção de algo que seja bom pra todos, há sem dúvidas um resultado mais eficaz que tem como base o respeito mútuo.

Ao longo do acompanhamento da Constituição da Assembleia, pudemos perceber que as intenções iniciais, ou seja, o sonho dos idealizadores da escola pode ter favorecido a constituição e manutenção desse espaço, pois trazia em suas ações a essência da constituição de um grupo colaborativo permeado pelo diálogo, pela reflexão e ação e decisão conjunta.
Por conta das concepções e representações sociais dos participantes da comunidade escolar e também acerca de um grupo de formação continuada em escolas convencionais ou tradicionais, houve um estranhamento inicial e a necessidade de tempo e reflexões para que se processasse e desenvolvessem ações conjuntas, de forma horizontal.
O conflito se fez presente e acreditamos que foi fundamental para a constituição da comunidade escolar, pois, permitiu a expressão sincera dos sentimentos, pensamentos e saberes. O respeito e a escuta atenta foram imprescindíveis e, estes, foram incentivados e valorizados em todos os momentos.
Acreditamos que foi fundamental a criação de regras de convivências elaboradas por toda a equipe, mas estas não podem ser meramente fictícias, criadas para camuflar uma situação ou um problema, sem que se tenha discutido os caminhos para as resoluções, pois, se assim for, talvez não surta o efeito idealizado.
No início das assembleias, foi realizado com os estudantes e educadores, um estudo sobre a importância desse ato na escola e sua estrutura, tais como: pauta, ata organizadores, dia, local, duração. Que foram pontos cruciais para os resultados positivos.


Tabela 1: Ata da Assembleia Colégio Oficina Pindorama

Como exemplo, dentre tantos momentos decisórios nas plenárias, está à questão do uso dos celulares no estabelecimento escolar, em que alguns estudantes queriam que o uso do celular fosse livre, outros queriam que tivesse uma regra para uso, porque talvez sem regras, a utilização dos celulares seria banalizada. Após o debate reflexivo, a pauta foi postergada para a próxima plenária com algumas decisões que deveriam ser repensadas e estudadas para que pudessem chegar a um veredito.  Sugestionado pelos próprios estudantes, em círculos de estudos, fizeram pesquisas sobre este conteúdo para trazer informações quanto aos prós e aos contras, referente ao uso de celulares durante o período escolar.
O coletivo decidiu que os educadores da escola, também ficariam incumbidos a compor com pesquisas. Na plenária seguinte, foram apresentados os resultados das pesquisas de cada círculo de estudo. Apareceram vários pontos que foram relevantes para as decisões: um círculo de estudo, explanou sobre o celular como ferramenta educativa; outro apresentou pareceres sobre o distanciamento que o uso do celular, em demasia, poderia causar entre os estudantes, pois eles preferiam que na escola pudessem ficar mais unidos pela fala e contato; doenças psicológicas tais como, o vício de usar o celular, na sua ausência, podem causar crise de abstinência, angústia, insegurança e outros sentimentos; apresentaram problemas físicos causados da radioatividade podendo desenvolver o câncer Glioma, tendinite e outros.  Após as apresentações de cada círculo de estudos, deu-se início o debate reflexivo, onde cada um que quisesse poderia se posicionar e dar sua opinião do uso do celular na escola.
A assembleia é composta por organizadores: quem gere o tempo, como a vez de cada um ter voz, conforme vão levantando a mão pra se posicionar; o escriba, etc.
Os educadores deixaram as questões voltadas entre os estudantes, dando total voz de decisão a eles. Foi combinado em listar as sugestões para depois todos se colocarem para a decisão final. Ficou decido de forma quase que unânime: o uso do celular como ferramenta pedagógica, aconteceria quando o professor ou tutor do grupo decidisse com os estudantes, se na ocasião da atividade seria necessário; foi acordado o uso na hora de intervalos de projetos e aulas e no horário da saída, pois muitos se comunicavam com os pais nesse horário; nas quartas-feiras ninguém usaria o celular, apenas como ferramenta pedagógica, seria o dia do ócio criativo para que eles pudessem pensar em atividades sem o celular; não ficou permitido tirar fotos, gravar conversas, nenhum tipo de atitude que pudesse comprometer o coletivo da escola.
Na ocasião, os estudantes de inclusão usavam os celulares livremente, entretanto, nesta assembleia ficou decido que todos colaborariam, de forma afetiva, a educar esse estudante a cumprir as regras, pois caso contrário, não estariam o incluindo, e sim o excluindo, o tratando de forma diferente dos outros.
As regras permanecem até hoje. No início de cada ano, as regras sobre o uso do celular na escola, são revistas com alunos novos, todavia as regras continuam as mesmas e com todos. Foram feitos vários outros acordos e ajustes para aqueles que transgridam as regras coletivas; a equipe teve de voltar atrás em algumas situações, começar novamente para que, de fato, as regras sejam respeitadas. É um desafio para todos, pois envolve a educação em valores. Por vezes são citados os valores: honestidade, cooperarividade e respeito ao próximo, como exercício significativo para a formação de caráter, ética e realização efetiva do que se deseja conquistar.
Esses encontros dialógicos favoreceram abertura entre todos para tratar de assuntos voltados aos estudantes de inclusão, que não estavam explícitos essa preocupação, e após alguns encontros esses foram assuntos colocados em pautas que, resumidamente, favoreceu a criação de um grupo de alunos interessados em aprender e colaborar com os alunos inclusivos, já que nos horários de pesquisas e projetos, todos os alunos do fundamental, ficam juntos (forma multietária), ou seja, não estão organizados de forma seriada. Criou-se, contudo, a equipe afetiva, que assim foi nomeado pelos corresponsáveis pelos estudantes da inclusão que, também, são sujeitos, que participam efetivamente dos debates. Muitos deles conseguem comunicar ideias significativas, informações e sugestões significativas nos encontros e são muito respeitados por todos (exemplos recentes sobre um desses alunos da inclusão que explanou na assembleia, quando estávamos decidindo alguns acordos coletivos para este ano, sobre os cuidados da febre amarela; outro falou sobre a organização e limpeza de nosso espaço escolar; um que entrou este ano fez um apelo para que não haja bullying na escola etc.).
Pode-se afirmar que esse compartilhamento de saberes, ideais, sinergia e elaboração conjunta dos caminhos administrativos e pedagógicas a serem seguidos são elementos que legitimam essa inovação nas práticas educativas, efetivando a descentralização das decisões e que é muito positivo, pois desta forma toda comunidade escolar torna-se corresponsável o que leva a uma gestão mais horizontal e, portanto com todo o coletivo da escola. Essas ações e experiências participativas favorecem na vida organizativa da escola, um espaço democrático e não hierárquico e muito colaborativo e de forma afetiva.
No processo educativo vivenciado não houve punição quando se notou uma possível “quebra” ou descumprimento das regras estabelecidas, apenas o diálogo afetivo. Outro aspecto importante foi à gestão que, para nós, ainda caminha para a horizontalidade; acreditamos que está próxima de se tornar uma organização que conta com indivíduos autônomos. Tal progresso pode ter derivado, além da relação afetiva entre os participantes da comunidade escolar, dos encontros dialógicos que visam à descentralização das decisões e o empoderamento de cada um para que se torne corresponsável por todos e pelo espaço. Caminhamos para uma gestão que tende a ser menos administrativa e mais pedagógica e humana e sonhamos com um permanente fazer coletivo.
Pudemos perceber que este espaço é potencialmente interessante para o desenvolvimento inclusivo e integral dos estudantes; além da participação ativa, torna-se possível exercitar o senso crítico e desconstruir a visão de uma hierarquização que impede o desenvolvimento da autonomia. Os alunos acabam por incorporar a roda de prosa e expandir as ações nela desenvolvidas para outras situações de seu cotidiano, oportunizando, inclusive, mudanças de postura e sua participação cidadã.

Referências

ANTUNÉZ, S. (2002). Disciplina e convivência na instituição escolar. Porto Alegre: artmed.

ARAÚJO, U.F. (2004). Assembleia escolar: Um caminho para a resolução de conflitos. São Paulo: Moderna.

BRASIL (1997). Parâmetros curriculares nacionais. Brasília: Ministério da Educação e do Deporto/Secretaria de Educação Fundamental.

MOSÉ, V. (2013) A escola e os desafios contemporâneos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.

PACHECO, J. Inclusão não rima com solidão. Belo Horizonte: Wak, 2012.

PUIG, J.M. (2000). Democracia e Participação Escolar. São Paulo: Moderna.

SAMPAIO, R.M.W.F. (1994). Freinet: Evolução histórica e atualidades. 2ª ed. São Paulo: Scipione.

VINHA, T. P. O educador e a moralidade infantil numa visão construtivista. Campinas: Mercado de Letras, 2000.


Inspirar o Ser pela vida e pela paixão de aprender

A passagem da infância e juventude é MÁGICA, pois, cada um traz dentro de si um mundo de possibilidades para aprender. A escolha dos caminhos que irão seguir  dependerá das oportunidades que lhes serão dadas. Os saberes por meio de uma Pedagogia Viva, voltada para o século XXI, dialogam com um diversificado repertório de assuntos que  favorecerão os aprendizes a cultivarem um futuro de conhecimentos.

É relevante envolvê-los, encantá-los com a beleza de suas descobertas, através do desenvolvimento de projeto de pesquisa subjetivo e projeto coletivo, na práxis, de forma prazerosa, numa odisseia de porquês.
É tempo de mudar o paradigma da pedagogia através do ensino- transferência para uma pedagogia pela construção dos saberes coletivo, centrada na relação, em que todos possam trocar conhecimentos, aprender uns com os outros, aprender a aprender. Onde os saberes não sejam apenas decorados, mas sejam aprendidos com significado para não serem mais esquecidos. Favorecer um currículo ativo que faça leitura com o mundo, que ensine o indivíduo a pensar, a refletir, a melhorar à sociedade.

Nossa missão com os educandos é trilhar caminhos para estimular e favorecer ferramentas e indicadores para o reconhecimento do próprio talento; a gostar de conhecer, de seguir um objetivo e realizar os próprios sonhos; desenvolver o espírito solidário, de cuidar de si, do próximo e da sociedade. Valorizamos o aprendizado para além dos muros da escola, por meio da participação social da sua cultura e do mundo contemporâneo. Todo espaço educativo deve contemplar uma filosofia holística de educação com objetivo de inspirar o Ser pela vida e pela paixão de aprender e de conhecer o mundo. Esse espaço deve ser lócus de formação de um povo transformador para a construção de uma sociedade mais justa.

Para que esta transformação aconteça é preciso criar momentos de diálogo entre todos: docentes, discentes, familiares... Um novo design pedagógico, com momentos e espaço dialógico em que acontecem os acordos coletivos, em que todos têm voz e, tornando-se pertencentes, corresponsáveis, participativas pelas decisões pra melhoria de um coletivo. Criar um novo padrão na formação de compor, não de impor.  .

É importante ressaltar que dentro da escola democrática a transformação irá acontecer através de uma equipe, coesão e sinergia, compromisso, responsabilidade e amor entre todos. Essa construção deve ser partilhada, pois não acontece de forma solitária.
Com ênfase em princípios de uma  Educação em Valores Humanos e Filosofia em Educação Antroposofica, façam considerar à formação do indivíduo para SER, com reflexões  necessários para à construção de um mundo mais fraterno e feliz.

“Para além de educar os saberes universais e científicos, educar o coração”.

            

Claudia Corrêa

Pedagoga- Psicopedagoga

Diretora do Colégio Oficina Pindorama

 

 

Ruan Rucasi

Educador